A imprevisibilidade da vida passou a ditar o tom após tomarmos contato com a existência do coronavírus. Estamos com medo. Nunca tínhamos visto algo dessa magnitude. Antes de dormir, a minha mente é assaltada pelos pensamentos referentes ao coronavírus e permanecem em meus sonhos como um eco... Ao despertar, antes de me dar conta de quem sou, a imagem do mapa mundi tomado pelo vírus me dá as boas vindas e então percebo que acordei para um pesadelo.
Tento imaginar o que são 20.000 mortes no mundo. Enfileiro mentalmente 10 pessoas. Multiplico-os por 10 = 100. Depois tento imaginar 1.000 pessoas, em seguida 20.000. Temos no mundo hoje, 450.000 infectados pelo coronavírus. É um quadro desalentador. As pessoas não são números... Cada uma com as suas particularidades. Como tudo isso é triste. Não fosse o vírus e estariam vivas!
Vi no Daily Mail fotos dos doentes febris deitados nos corredores dos hospitais na Espanha. São 700 mortes a cada noite na Itália. Nem posso imaginar o caos que a África e Índia enfrentarão, como também os outros países sem recursos, incluindo o meu. Aqui não há testes para todos, nem mesmo para os doentes. Tampouco máscaras e luvas cujo pedido se esgotou nas farmácias antes de chegarmos a 10 mortes. Tenho esperança de que aqui, a nossa mania de lavar as mãos toda hora detenha um pouco a transmissão. Na semana passada, nosso governador Ibaneis determinou o fechamento das escolas, comércio, com exceção de farmácias, supermercados e outros poucos. As ruas de todo o país estão desertas. Os que insistem em desobedecer, são alertados para que retornem às suas casas. A emergência agora é a saúde! Estimam que o número seja mais de 600.000 mil de contaminados no mundo, considerando que há pessoas assintomáticas, espalhando o vírus.
Será que nunca mais viveremos como antes? O certo é que enquanto não tivermos a vacina, estamos fadados ao confinamento, e essa ideia de "imunização de rebanho" é a teoria mais insana que já ouvi. Está fora de cogitação. A imunização matará o "rebanho", infectologista maluco. Volte para a escola!
Não há mais como se despedir dos familiares. Os velórios são feitos rapidamente, em alguns países. Em outros, os corpos vão direto para a cremação. Em Madri, no "Palácio de Gelo", os corpos são colocados na pista de patinação, para melhor conservação, tal a quantidade. Necrotério improvisado.
Assisto, com assombro, o que tem ocorrido nos países europeus, nos Estados Unidos, demais países. Antes, acompanhei diariamente os acontecimentos em Wuhan e não entendo por que os demais países, com exceção da Coreia do Sul, Japão e uns poucos, não levaram a sério o coronavírus, quando ainda na China. Tracei estratégias naquela ocasião, já atemorizada, lendo tudo sobre o assunto para agir acertadamente e antecipadamente, me antepondo aos problemas como forma de mantê-lo o mais longe possível.
Ó querida Itália, berço dos meus antepassados, mantenha-se firme! O mesmo quanto aos demais países. Precisamos derrotar esse vírus. O meu coração está em cada um, como se percorresse cada corredor, ouço a respiração ofegante dos doentes, sinto os seus temores e dores como se me acompanhassem aonde vou... S. C. Abaixo, algumas das músicas italianas que ouvi na infância. Tão familiar... tão emocional.
Acima, duas cantoras brasileiras, mãe e filha, descendentes de italianos, cantado neste idioma. Luiza e Zizi Possi (filha à esquerda, mãe à direita, no vídeo. Desde a adolescência sempre gostei da Zizi Possi. Então, quando a filha nasceu e até hoje, sinto grande ternura também pela filha dela. São uns amores. Canzone per Te. A vantagem é que muitos de nós, brasileiros, entendemos várias palavras e frases em italiano pois nossos idiomas tem raízes no latim.
Se non avessi più te, meglio morire, perché questo silenzio Che nasce intorno a me, se manchi tu, mi fa sentire Solo come un fiume che va verso la fine, questo devi sapere Da queste mie parole puoi capire quanto ti amo
Ti amo per sempre Come nessuno al mondo ha amato mai Ed io lo so che non mi lascerai, no, non puoi
Io posso darti, lo sai, solo l'amore, posso amarti per sempre Ma come il fiume che va, io troverei la fine se non avessi più te
Carta do Covid-19 para a Humanidade em italiano LETTERA DAL VIRUS Texto: Darinka Montico Voz: Giulia Chianese (Tradução em português, do Brasil) Pare! Simplesmente pare! Stop! Não se mova. Isto não é um pedido, é uma ordem! Estou aqui para ajudar-te Essa montanha-russa supersônica está descarrilhando Chega de aviões, trens, escolas, centros comerciais ou encontros... Nós quebramos o frenético porto de ilusões e obrigações que impedia-nos de erguer os olhos para o céu, olhar as estrelas escutar o mar, ser embalado pelo canto dos pássaros deitar nos campos, colher uma maçã do pé, acariciar um animal da fazenda, respirar o ar da montanha, e ter bom senso. Nós tivemos que rescindir Vocês não podem brincar de ser deuses a nossa obrigação é recíproca, como sempre foi ainda que vocês tenham esquecido interromperemos essa transmissão essa infinita transmissão catastrófica de separação e distração para levar a vocês esta notícia: Não estamos bem! Nenhum de nós está. Todos nós estamos sofrendo! No ano passado, a tempestade de fogo a qual queimou os pulmões da terra não os fizeram parar nem o fato das geleiras estarem derretendo nem ver a sua cidade que vem se deteriorando Na certeza de saber que vocês são os únicos responsáveis pela sexta extinção em massa. Vocês não me ouviram. É difícil escutar visto que estão tão ocupados empenhados, lutando para subirem cada vez mais alto e atingir o topo do capitalismo por puro egocentrismo (...) os recursos estão se esgotando a estrutura está cedendo com o peso da ambição e egoísmo de todos Eu irei te ajudar! Vou enviar uma tempestade de fogo para o seus corpos, vou alagar os seus pulmões e os isolarei como os ursos polares que estão nos icebergs que boiam à deriva Vocês me escutarão agora? Não estamos bem! Eu não sou um inimigo, sou um mero mensageiro, sou um aliado Eu sou a força que irá restabelecer o equilíbrio Agora vocês precisam me escutar Estou implorando para vocês pararem Parem! Por favor! Escutem! Agora olhem para o céu... Como está? Não há mais aviões Quão doente vocês precisam ficar para conseguirem para entender a importância do oxigênio que respira? Olhem para o oceano. Como ele está? Olhem para os rios. Como eles estão? Olhem para a terra... como ela está? Olhe-se no espelho. Como você está? Não é possível estar saudável em um ecossistema como o nosso Pare! Muitos estão com medo agora não amaldiçôe o seu medo não se deixe dominar Me permita falar Escute o que a sua consciência tem a dizer Aprenda a sorrir com os olhos Eu irei ajudá-los, mas vocês precisam me ouvir.
“We open our mouths and out flow words whose ancestries we do not even know. We are walking lexicons. In a single sentence of idle chatter we preserve Latin, Anglo-Saxon, Norse: we carry a museum inside our heads, each day we commemorate peoples of whom we have never heard.”
(Penelope Lively)
"Abrimos nossas bocas e emitimos palavras fluidas cujos ancestrais nem conhecemos. Estamos andando com léxicos. Em uma única frase de tagarelice, preservamos o latim, anglo-saxão e nórdico: carregamos um museu em nossas cabeças, todos os dias comemoramos povos de quem nunca ouvimos falar." (Penelope Lively)
Penelope Levely é uma escritora britânica, escreve ficção para crianças e adultos.